Queda de tráfego do ChatGPT: sumiu a visita ou a etiqueta?

Atenção e PlataformasDeixe um comentário

Ilustração de pessoas que saem de um balão de chat com um link e caminham até uma página web; as primeiras levam etiquetas laranja, que caem no caminho, e quem chega à página chega sem etiqueta. Ilustra o artigo Queda de tráfego do ChatGPT: sumiu a visita ou a etiqueta?.

Imagem criada com IA, a partir de um prompt do autor.

Entre 9 e 11 de outubro de 2026, as sessões atribuídas ao ChatGPT no Google Analytics 4 caíram cerca de 46% nos sites monitorados pela LLM Pulse, na comparação com os mesmos dias das duas semanas anteriores. Quantos sites são, o levantamento não informa. E quem assina o número, Esteve Castells, é cofundador de uma ferramenta de monitoramento de visibilidade em IA. O tráfego total desses sites, no mesmo período, ficou quase parado: -2%.

Um canal perde quase metade das visitas em três dias e o total quase não se mexe. Antes de qualquer conclusão sobre conteúdo para assistentes de IA, essa queda de tráfego do ChatGPT pede uma pergunta mais simples: as visitas sumiram ou só deixaram de chegar com etiqueta?

Mas o próprio total tem limite como pista. Quanto o ChatGPT pesa nos sites da LLM Pulse, o levantamento também não informa. A referência disponível é de fora: a média de 101.574 sites medida pelo SE Ranking, anterior à quebra, em que o canal ficava em décimos de ponto percentual do tráfego. Se esses sites se parecem com essa média, o total estável no agregado não distingue uma hipótese da outra — ele ficaria quase igual nos dois casos, e seria compatível até com uma perda real pequena. Se dependem mais do canal, o total pesa mais como pista.

A pergunta importa agora porque os relatórios de outubro e do trimestre estão sendo fechados. E “queda de 46% no tráfego do ChatGPT” é exatamente o tipo de número que vira slide de reunião (em vermelho, de preferência, e sem nota de rodapé) e, dali, corte de orçamento.

O que aconteceu em 9 de outubro

A LLM Pulse não foi a única a ver a queda. Segundo a Search Engine Journal, a Graphite mediu recuo entre 22% e 57% nas sessões do ChatGPT no GA4 em sites com tráfego relevante de assistentes, desde o dia 9, com estimativa de 45% sobre a linha de base. A faixa é larga e a amostra é outra, mas a direção é a mesma. A causa continua em aberto — e a Graphite é também uma das fontes da explicação que circula.

O GPT-6 chegou aos planos pagos em 7 de outubro e aos gratuitos no dia 8. A LLM Pulse não viu queda no dia 7. A quebra aparece no dia 9.

A explicação vem de analistas como Ethan Smith, da Graphite, e Cedric Huesler, da Adobe — não de documentação da OpenAI. Depois do GPT-6, os links que aparecem no meio das respostas deixaram de dizer de onde vinha a visita (sumiram a etiqueta utm_source e o referrer, a informação que o navegador passa sobre a página anterior). Sem isso, o GA4 não tem como saber de onde a pessoa veio e classifica a visita como Direct. Os links do painel de fontes e os de compras continuaram etiquetados.

A confirmação de que era bug chega de segunda mão: segundo a Search Engine Journal, Huesler disse que a OpenAI lhe confirmou isso em 14 de outubro, e uma correção começou a ser implantada no dia 15, com cliques etiquetados voltando a algo entre 95% e 100% do nível da semana anterior em milhares de domínios rastreados. Glenn Gabe, por sua vez, reportou não ver mudança em contas pagas e gratuitas, e não há comunicado oficial localizado.

Os indícios de que a etiqueta sumiu

O dado mais útil é o de Huesler, resumido também pela Relevant Audience: cerca de 500 páginas em que o ChatGPT respondia por 5% ou mais das visitas. Comparando 9 a 13 de outubro com a semana anterior, essas páginas perderam perto de 31 mil visitas por dia vindas do ChatGPT e ganharam perto de 26 mil por dia em Direct. A busca, nessas mesmas páginas, caiu 7%. O tráfego total delas não foi informado.

Nas páginas onde o efeito deveria aparecer, o que saiu de um balde entrou quase todo no outro. Quase — a diferença de 5 mil visitas por dia não tem explicação, e os dados são amostrais e cobrem poucos dias.

Há um segundo indício, mais indireto. Ainda segundo Huesler, a taxa do banner de consentimento no mobile entre visitantes novos em Direct foi de 36% para 44%. Entre visitantes do ChatGPT, ela era de 55%. O Direct ganhou de repente um perfil que se aproxima do de quem vem do assistente. Um sinal só, de um analista só.

E há o lado do link exibido. A Profound reportou que a parcela de respostas com pelo menos um link etiquetado caiu de cerca de 98%, em 8 de outubro, para 66% no dia 14, enquanto as respostas no novo formato de interface subiram de 2% para perto de 35%. A Peec AI viu URL direta em 42% das respostas (antes, entre 8% e 10%), mais da metade apontando para homepages. São links que aparecem na tela, sem informação de quantos foram clicados, e nenhuma das duas informa o tamanho da amostra.

O clique que não aconteceu

A própria fonte do número de 46% é a primeira a pôr freio. A LLM Pulse não viu alta clara em Direct no agregado e diz que dados agregados não separam tráfego perdido de tráfego reetiquetado. A Limy, que defende a tese da etiqueta, admite que parte da queda pode ser real: com respostas mais completas dentro do chat, uma fração das pessoas pode simplesmente não clicar mais.

Esse efeito — a resposta que dispensa a visita — não aparece no analytics de ninguém. O clique que não aconteceu não deixa rastro.

Tem ainda um ruído anterior. Segundo a Limy, que vende atribuição e não teve esse dado verificado por terceiros, desde 1º de outubro o Google teria indexado links do ChatGPT com a etiqueta, o que faria cliques vindos do Google serem contados como ChatGPT. Se for isso, a linha de base de antes do dia 9 já estava inflada.

LLM Pulse, Graphite, Profound, Peec AI, Limy e SE Ranking vendem ferramenta de SEO, de monitoramento de IA ou de atribuição, e o tema interessa comercialmente a quem o mede. A exceção parcial é Huesler, que fala de dados de pesquisa dele na Adobe. Os números não ficam falsos por isso, mas não foi localizado dado de terceiro neutro sobre a quebra de 9 de outubro (Similarweb e Cloudflare não foram achados, e o dado de Huesler é de um analista individual).

A régua é de outra empresa

A leitura mais bem sustentada hoje é a de rótulo perdido, mais do que de visita perdida. Mas ela não está estabelecida — e talvez nem possa ser, só com analytics.

O canal “ChatGPT” no GA4 só existe enquanto a plataforma escolhe assinar o link. Basta uma mudança de produto do outro lado (um formato novo de resposta, um atributo novo no link) para a série quebrar. E quem decide orçamento com base nela não controla essa mudança nem é avisado dela.

Isso muda a natureza do número. A queda de tráfego do ChatGPT no relatório pode ser queda de atenção, queda de atribuição ou uma mistura das duas. O gráfico, sozinho, não diz qual.

Como separar etiqueta perdida de visita perdida

Se você tem páginas que dependem do assistente, dá para separar uma coisa da outra com os dados que o site já tem. A primeira pergunta é se o Direct subiu justamente nas páginas que perderam referral do ChatGPT — é nessa coincidência, na mesma página, que a troca de etiqueta aparece. Se o tráfego total dessas páginas ficou estável, a visita provavelmente continuou chegando, só que sem nome.

As conversões por página (cadastro, assinatura, venda) não dependem de saber de onde a pessoa veio e servem de contraprova. E a série precisa ser cortada em três janelas: antes de 9/10, de 9 a 15/10 e depois. Se a correção do dia 15 pegou de fato, outubro vai misturar três regimes de medida, e a média do mês não se compara com nada.

Esse teste tem um limite claro: ele não enxerga o clique que deixou de existir porque a resposta ficou no chat. Para esse, a pista mais próxima é acompanhar se o site continua sendo citado nas respostas, sabendo que entre ser citado e ser visitado há uma distância que o analytics não mede.

Quanto o ChatGPT pesa no tráfego

Falta ainda uma conta de proporção, e a referência disponível vem de fora do episódio. O SE Ranking, em 101.574 sites com Google Analytics, mediu o referral do ChatGPT em 0,23% do tráfego em abril e 0,32% em maio de 2026. Décimos de ponto percentual, antes da quebra, numa média que não descreve a amostra da LLM Pulse nem nenhum site em particular.

Para a maioria dos sites, cortar ou ampliar investimento em conteúdo por causa de uma queda de 46% num canal desse tamanho é decisão apoiada em pouco. A exceção são as páginas que dependem do assistente, como aquelas 500 em que ele respondia por 5% ou mais das visitas. Nelas o número pesa — e é justamente nelas que o teste página a página funciona melhor.

Já se discutiu por aqui que ser fonte para buscadores e LLMs não garante tráfego. Outubro acrescenta uma camada: nem o tráfego que existe é medido de forma estável.

Orçamento de conteúdo não se decide com uma régua que outra empresa muda sem avisar.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.