Estágio em IA: o que as empresas cobram e prometem ensinar

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Barras de contraste em tamanhos diferentes sobre fundo escuro, representando o descompasso entre seleção detalhada e formação resumida.

Fiquei surpreso ao ler como a Localiza&Co descreveu a seleção do seu estágio corporativo 2027. Antes de chegar à entrevista final, o candidato passava por um chatbot com áudio, uma entrevista gravada, uma dinâmica estilo escape room (a sala trancada da qual se sai resolvendo enigmas), um “aulão de IA” e a apresentação de um case de IA. No Estágio Tech, havia ainda um hackathon. No trainee, case de IA em vídeo. Só faltou a prova de salto ornamental.

As inscrições fecharam em 18 e 30 de setembro de 2026, segundo o Diário do Comércio. Mas o que chama a atenção não é o tamanho da maratona. É o que vem depois dela.

Para quem passa, a matéria fala em regime híbrido (presencial duas vezes por semana), trilha de aprendizagem, mentoria de profissionais seniores, projetos em equipe e formação prática em IA. No trainee, mentoria de líderes, rodízio entre unidades e projetos estratégicos em duas diretorias. Quantas horas tem a trilha? Quanto tempo o mentor dedica a cada estagiário? O que conta como formação prática em IA? O texto não diz.

E eis o descompasso: a seleção tem nome, formato e ordem. A formação cabe numa lista.

Seria cômodo concluir que todo programa de estágio em IA funciona assim. A comparação com outros quatro mostra que não. Na Casas Bahia, o retrato se divide. No iFuture, do iFood, e no Next Gen AI, da CI&T, a balança chega a pender para o outro lado.

A entrevista com a máquina

Em janeiro, a Casas Bahia abriu 50 vagas de estágio, com bolsa de R$ 2.500, e 27 de trainee, com salário de até R$ 8.500, e inscrições até 2 e 19 de fevereiro de 2026. Uma das etapas era uma entrevista conduzida por IA, batizada de Fator H, que avalia competências comportamentais e alinhamento cultural (e não deixa de ter sua graça ser avaliado em alinhamento cultural por um software). O anúncio saiu na Bloomberg Línea como conteúdo patrocinado, produzido pelo próprio grupo. Nada de errado nisso, mas é a empresa falando de si.

O caso mais recente é o GenAI 2027, do iFood, com inscrições de 27 de outubro a 17 de novembro, segundo o Seja Trainee — um agregador de vagas que não fala pela empresa. São duas trilhas (AI Engineer e AI Builder), seis meses a 30 horas semanais e uma seleção com entrevista automatizada por IA, desafio técnico, entrevistas e case. As bolsas que o agregador publica (R$ 5.200 no estágio, R$ 7.000 na residência) e as datas não foram confirmadas em fonte oficial. Na formação, ele promete capacitações em IA, mentorias, bootcamps, hackathons, projetos reais e uma imersão internacional numa empresa do grupo Prosus. É uma lista de benefícios, sem carga horária nem quem mentora, e de fonte não oficial pesa pouco.

A IA na seleção já deixou de ser traço de um programa só. O que varia é o detalhe com que cada um a descreve.

E depois da aprovação?

Na Casas Bahia, o trainee dura 12 meses, em dois ciclos com entregas práticas, acompanhamento contínuo, avaliação ao fim de cada fase e acesso à Universidade Corporativa. É mais detalhe do que a seleção, da qual se conhece uma etapa. Para o estágio, o texto patrocinado não descreve trilha nem mentoria. Andreia Nunes, diretora de Gente & Gestão, diz que os participantes “aprendem e atuam em projetos com impacto direto na operação e na experiência do cliente”. A fala não conta o que a IA faz no dia a dia do estagiário.

O iFuture 2026, outro programa do iFood, tem cerca de 50 vagas, processo online de uns quatro meses, 30 horas semanais e início em janeiro de 2027, segundo a Tribuna de Jundiaí, com dados da empresa. A formação prometida inclui imersão na cultura, Plano de Desenvolvimento Individual com a liderança direta, capacitações, projetos reais e acesso a mais de 26 mil cursos — número que não se esgota num estágio nem em dez. A matéria não detalha a seleção, não informa a bolsa e não diz se há IA no processo.

A CI&T é quem descreve a formação de forma mais estruturada. O Next Gen AI tem um AI Bootcamp Next Gen, com teoria e prática na plataforma própria da empresa, a Flow, além de mentoria e projetos nacionais e internacionais. Segundo o Canaltech, em dezembro de 2025, a primeira turma de 2026 tinha 200 vagas. Bárbara Ritzmann, da CI&T, diz que a empresa procura “jovens com curiosidade e dispostos a aprender”. Falta a carga horária, e a matéria não descreve a seleção.

Os números que circulam como prova

Costumo desconfiar de número que chega sem amostra. E o dado de mercado mais citado chega assim. Saiu no Correio, em 8 de agosto de 2026: um levantamento da Leapy diz que 82% dos gestores que contratam estagiários e trainees admitem não saber ajustar essas vagas à IA e que só 14% das empresas criaram trilhas estruturadas de capacitação. O Correio não informa amostra, período, método nem quem encomendou o levantamento, e a publicação original não foi encontrada. São números relatados, não verificados. Combinam com parte do que os anúncios mostram, mas não servem de prova.

A mesma reportagem cita, da Revelio Labs, queda de 35% nas admissões de nível inicial nos últimos 18 meses, sem recorte geográfico claro. A página da Revelio descreve anúncios de vagas de nível inicial nos Estados Unidos, desde o início de 2023, e avisa que essa queda, sozinha, não estabelece a IA como causa.

Para o Brasil, o dado mais próximo é um estudo de Daniel Duque, do FGV Ibre, com microdados da PNAD Contínua, relatado pelo Olhar Digital. Comparando perfis semelhantes em 2022 e 2025, jovens de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas à IA teriam cerca de 5% menos chance de estar empregados e cerca de 7% menos renda, com efeito bem menor nas outras faixas de idade. O próprio Duque pede cautela, porque o período é curto e os dados de exposição das ocupações são preliminares. A reportagem não esclarece se os 5% são pontos percentuais ou variação relativa. E o estudo mede exposição por ocupação — não observa o que cada empresa faz com seus estagiários.

Duque avalia ainda que a IA é eficiente em tarefas de entrada, como funções administrativas e de apoio, e que “tomar decisões não é algo que se vê, ainda, na IA”. Desconfio, e aqui é hipótese, não dado, que parte dessas tarefas de apoio servia de treino para o iniciante, sob o olhar de alguém mais experiente. Se for assim e a máquina passar a fazê-las, o treino precisa estar em outro lugar — e o anúncio deveria dizer onde.

Sobra a efetivação. O iFood informa 70% ao fim do iFuture e cita a mesma taxa, de programas anteriores, para o GenAI, sem garanti-la ao programa novo. O Itaú, num comunicado de julho de 2026 que não menciona IA, fala em cerca de 2 mil estagiários por ano e cerca de 65% de retenção. Os números são das próprias empresas, com definições e bases não divulgadas, e nenhum separa o estágio com IA dos demais. Compará-los para dizer que o estágio com IA retém mais ou menos seria chute.

O que o anúncio deveria dizer

Há um limite nessa leitura: os textos analisados são conteúdo patrocinado, matérias que reproduzem material das empresas e agregadores, não editais completos. A falta de detalhe sobre formação pode ser só o formato do texto, e o programa pode ser melhor do que o anúncio. O que se lê aqui é o que se anuncia, não o que se entrega.

Também não dá para dizer que o estágio acabou. Foram anunciadas vagas de entrada: 50 de estágio e 27 de trainee na Casas Bahia, cerca de 50 no iFuture, 200 numa só turma da CI&T. Sem série histórica, não se sabe se é mais ou menos do que antes. O próprio Correio conclui que o estágio não vai acabar e que o perfil pedido muda para pensamento crítico, comunicação e resolução de problemas. Anunciar vagas não prova que a escada de aprendizagem esteja de pé. Mas também não prova que ela caiu.

Ainda assim, as empresas respondem por boa parte desse silêncio. Culpa exclusiva delas, não: comunicado e agregador cortam detalhe por natureza. Mas é o anúncio que diz ao jovem o que procurar e como se preparar. Bastariam três informações para mostrar onde está o treino supervisionado: quem acompanha o estagiário, quantas horas por semana são de formação e o que ele faz no primeiro mês. Afinal, quem consegue descrever a seleção etapa por etapa consegue descrever uma trilha.

Para quem contrata, a pergunta é se o programa descreve a formação com o mesmo capricho com que descreve a seleção. Na Localiza, pelo que se anunciou, a prova tem mais detalhe que a aula.

Quem pede curiosidade ao estagiário poderia começar satisfazendo a dele.

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