O pivete Jorge – parte 3 (grand finale)

E tudo acaba bem...

Chegamos até o meu edifício. Jorge, já íntimo, pergunta se não haveria comida sobrando lá em cima. O pedido era a prova de que algo de muito errado estava acontecendo ali. Mandei uma negativa, talvez sem nenhum embasamento tentando afastar ao máximo o perigo. Afinal, quê diabos ele queria?

Já estava pronto para abrir a portaria e subir correndo, quando o gênio do meu irmão (mais novo que eu) me aparece saindo do elevador. “Vim guardar a bicicleta, Bruno”, desferiu. Jorge arregalou os olhos e ficou na espreita. Ela estava na garagem, mas precisávamos guardá-la lá mesmo, dentro no armário referente ao nosso andar.

Não tive escolha. Abri o portão e entramos os 3. Jorge, o circense, corre na direção da bicicleta, a põe nos ombros e pergunta onde deveria colocá-la, fazendo graça. Ri de nervoso com a palhaçada e vi que as coisas estavam cada vez piores. Ele acabou colocando-a no chão e eu a guardei no armário, enfim. Mas ainda restava meu skate no chão. O potencial pivete correu em sua direção, perguntou se poderia dar uma voltinha. Malandramente, fingiu que ia colocá-lo na rua e saiu correndo com ele debaixo do braço. Pronto. Aconteceu. Por um momento tive a esperança de que fosse uma brincadeira, e berrei: “Joooooorgeeeeeeeeeeeeeeeeeee, devooooolve!” Mas ele já tinha sumido, virando a esquina.

O grito chamou a atenção da rua inteira. O porteiro do quarteirão ao lado, pai de um amigo, aparece na hora e desfere um comentário muito feliz para a ocasião: “Porra, Parodi, o cara te roubou? E ele agora sabe que você mora aqui? Tá doido, rapá?”. Minha mente pensou: “Vai tomar no seu cu! Obrigado pela ajuda psicológica neste momento…”, mas minha boca preferiu proferir: “É né?”

Subi desolado e pondo a culpa no meu irmão. Meu pai tinha saído e ainda estava fora. Deitei no sofá da sala me lamentando. Que mole que eu dei… E no dia seguinte, um sábado, iríamos para a casa do pai de um amigo, onde tinha uma rampa de skate.

Cinco minutos depois começou um falatório embaixo do meu prédio. E cada vez mais alto. E eis que começa: “PAROOOOODIIIII! PARODIIIII!” Pus a cabeça na janela. Umas dez pessoas estavam lá. “Roubaram seu skate, né?” Eu acenei que sim. “É esse aqui?”, e eis que uma mão levanta o meu brinquedo em meio àquela gente toda. Nem pude acreditar… Era ele mesmo! Desci na hora.

Tudo tem uma explicação: ao fugir daqui com o skate na mão, Jorge passou correndo, suspeito, pela rua ao lado. Os porteiros de lá foram atrás do pivete e baixaram-no a porrada, resgatando meu precioso veículo. Os moleques de lá sabiam que o objeto era de alguém da minha rua, e vieram conferir quem era o dono. Na pancadaria com o projeto de criminoso, também ficou um boné, novinho, que ele deve ter “recolhido” de algum incauto. Quem vai?

Mais que um amigo, Jorge era um pivete que passou um dia com a gente. Nunca mais foi visto.

Comments 3

  1. eu achei que o pivete jorge fosse um cara legal. que merda brow. senti isso na pele aos 13 anos também. por causa desse texto maleficamente nostálgico, nem vou mandar “aquela” bronha sacana da madrugada… muito obrigado, bp parodi. beijos a todos.

  2. Espetacular a história…..O coro da galera gritando PAROOOOOODDDIIIII, foi demais….Me fez lembrar muita da minha infância.

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